
CANTO IX
[...]
O emaranhado me sufoca, eu peno
Com estas pontas secas na garganta,
Mãos do medo, este medo de perder,
Não um reino, e, sim, todas as razões
Que os anos de pilhagem e pilhéria
Impuseram a uma alma filial.
Pouco a formosura hoje me fará,
Se pouco fez, além de sustentar
Caprichos de alguém só, sem companhia
De uma figura justa que amparasse
O entendimento do progresso no homem,
No mundo do homem, tão precário e falho.
Que esperança haveria se o rei desse
Combate aos maus instintos criminosos?
O povo seria outro, Israel, outro:
Virgens não sofreriam violência
E a esposa do soldado o esperaria,
Sem temer por seu encanto à vista.
Demandas, que se encontram com paredes,
Teriam soluções abençoadas.
Ah! Mísero Israel, que não és tal
Como o sonha Deus, como eu mesmo o sonho
Nem poderei calar disparidades,
Sendo o rei que meu pai falhou em ser,
Já que me encontro às voltas com a morte.
Com cabelos e galhos sobre os olhos,
Vejo fragmentos de um bosque (ou de um mundo?);
Ouço hurros e erros, golpes e galopes.
E pensar que eu fiz tudo isso ocorrer,
E quase, por um pouco, eu não puni
O homem que indignamente ocupa o trono!
Eu o sucedi com larga vantagem,
Porque eu me fiz nobre pelo exílio
E o superei em toda habilidade.
O que Davi não pensa em seu refúgio!
Que medo ele não tem de que eu consiga,
De que a luta termine a meu favor,
E eu decida por sua vida ou morte?
Onde está Davi? Onde ele se esconde?
Por que não vem me ver, agora ao menos?
Quem sabe eu o deixaria respirar,
Para que ele tentasse ser meu rei.