
Palavras de Rensi
Ó filho de Rá: fala-vos, ó Rei,
O pó que ante a presença tua expira.
Faraó: o camponês de quem tratei,
Cuja fala escrivães põe no papiro,
Cuja eloqüência aos sábios tanto admira,
Muito trouxe, e ao porvir eu me refiro:
O que nos disse com tanta beleza,
Quem sabe sirva para, no futuro,
Relembrar a justiça a um povo duro
E no Nilo haverá sempre a realeza.
Engenheiro Coelho, 30 de Outubro de 2002, às 10:58h.
I ' Discurso de Khun-Anup
Trago-vos, Rensi, vinho de mélea uva,
Posto que frutifica vossa mente:
Sois para a mão do fraco a única luva,
E para o camponês sois a semente;
Pai dos órfãos, marido da viúva,
Útero ao que possui a mãe ausente;
Quando vindes, justiça cai em chuva,
Que aniquilais quem fala falsamente;
A repudiada tem em vós o irmão,
Ó sol que abris as pálpebras da lei,
Estendendo ao mendigo a mesma mão;
Ouvi, ouvi, que agora falarei,
Não para gastar tão nobre atenção;
Peço-vos: trazei ma'at, filho do Rei.
Engenheiro Coelho, 29 de Outubro de 2002, às 23:30h.
II ' Discurso de Khun-Anup
Ó governador, falam-me emoções
A mim, dos rudes homens o mais rude,
Ao ver por soberanos das nações
Gente baixa que por gan'ncia ilude.
Mostram vossos juizes nas ações
Em lugar de perícia, dessuetude;
Braços valentes, jovens corações
Têm, sem que vosso braço lhes ajude.
Funcionários são pedras de moinho
Cansando píceos ombros pacientes
De todo estrangeiro, órfãos e vizinho.
Nossas unhas rói, tira nossos dentes
A corte, que põe sobre os ombros linho,
E desnuda oprimindo nossas mentes.
Engenheiro Coelho, 30 de Outubro de 2002, às 9:20h.
III ' Discurso de Khun-Anup
Vi barqueiros levando a quem pagava;
Mastigam o humilde aves de rapina;
Ao rebanho nenhum pastor contava;
E a polícia é quem ao povo assassina.
Como pode haver entre a não brava
Uma corrupção tal? Quem imagina
Que ergue pórticos débil mão escrava,
Sem nada receber da corte fina?
Quando o chefe, que deve reprimir
Às mãos manchadas por sangue inocente,
Ao que quer vem por força possuir,
A cúpula dos maus vê-se de frente
Com gente em cujo mal podem sentir
O exemplo do que é ser ímpio somente.
Engenheiro Coelho, 30 de Outubro de 2002, às 14:35h.
IV ' Discurso de Khun-Anup
Se assegura o favor a propriedade,
Se o que traz o direito é o dinheiro,
Vague a viúva em vão pela cidade,
E da esperança aparte-se o ceifeiro.
Não haverá para o órfão sociedade
E nem para o faminto algum celeiro;
Todo o tempo será de enfermidade,
Para o grande e pequeno, o tempo inteiro.
No portal do horizonte, o Criador
A todo pulmão fez com que ar houvesse
E a inundação a todo lavrador;
Fez homens iguais ' mas quem lhe obedece?
Ao Reino pascerão medo e pavor,
' Deus Se recusará a ouvir a prece.
Engenheiro Coelho, 30 de Outubro de 2002, às 15:15h.
V ' Discurso de Khun-Anup
Escutai, escutai a voz com sede
De que haja terra para quem planta
E arroz para o estrangeiro; escutai, vede
A fome que ante o povo se levanta.
Ao pescador ninguém fornece rede;
Logo, o seu insucesso não espanta.
Lede a falta de siso, ó Rensi, lede
O ouro que em vosso cofre apenas canta.
O molar de oficiais se encontra cheio
E se envergam ao peso dos colares,
Por semear no pobre um falso enleio.
Dizem falsas promessas para os lares,
E às choças mentem ' era o único meio
De dominar: excluindo os próprios pares.
Engenheiro Coelho, 30 de Outubro de 2002, às 16:30h.
VI ' Discurso de Khun-Anup
Como ser leal quando há nisto morte?
Como obedecer quando a Opressão manda?
É razoável o julgo férreo e o porte
Rijo da tirania que em volta anda?
Obediência é moral e é nossa sorte,
Indispensável para que se expanda
A nação, para que ela seja forte,
E não haja jamais sombra nefanda.
À garganta do fogo levará,
Porém, a servidão à ordem sandia,
E a noite o obedecer toda lei má.
Na pir'mide da ordem haveria
Base com a miséria que se dá?
Nem terra, nem o Nilo, nem o dia!
Engenheiro Coelho, 30 de Outubro de 2002, às 16:55h.
VII ' DISCURSO DE KHUN ANUP
Sabeis, Rensi, que trato do que vejo
E da opressão vos trago hostis notícias;
Tendo os superintendentes o desejo,
Crescem contra os excluídos as sevícias.
Vem inédia ao estrangeiro, ao órfão despejo,
A consumpção geral fere as milícias:
Despojam díscolos qualquer sobejo;
Moças por pão se entregam às malícias;
Cede o sistema sem leis sob o céu
' A gente acorre à praça, adversa à fleuma,
Opondo-se à ordem, a causar celeuma.
A vasca aumenta, é como um neuma.
Sem grãos, como viver sem escarcéu,
Se cada plantio hoje anda griséu?
Guarulhos, 3 de Janeiro de 2005, às 23:58h.
VIII ' DISCURSO DE KHUN-ANUP
Cítaras se ouvem do palácio em festa
E harpas tocam até o amanhecer;
Como pode ocorrer coisas como esta,
Quando o agricultor míngua sem colher?
Quando acomete a usura à mão que empresta,
E o juiz deixa por lucro o dever,
Como bem de nossa época se atesta?
O governo é quem quer se promover?
Maquilam a verdade com promessas,
Compram o povo com miúdos favores,
Construindo casas ou pontes às pressas!
Querem nos fazer crer que olham por nós,
Que intensamente sentem nossas dores,
Quando a alma contraria a própria voz!
Guarulhos, 4 de Janeiro de 2005, às 24:28h.
IX ' DISCURSO DE KHUN-ANHUP
Não sou poeta ' sou um camponês,
Que as mãos tenho ásperas e os pés com bolhas;
Assim, não sei falar com sensatez
' Sei cuidar de hortaliças, rego as folhas.
Ó Rensi, luz sois, Deus mesmo vos fez
Para nos guiar por vossas escolhas.
Somos vosso rebanho montanhês,
E as ovelhas, sabeis bem, são zarolhas.
Peço-vos que se alguma frase incauta
Vos pareceu faltar com o respeito,
Perdoai-me: sequer sei seguir a pauta.
No demais, o fragor que arde em meu peito
Ignora o que se fala à mesa lauta
E não sabe das jóias o conceito.
Guarulhos, 4 de Janeiro de 2005, às 24:45h