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(DIÁRIO DE UM MINEIRO)

 

Chão que é teto. E lhe dão sulcos novo contorno.

Mercúrio infecta a fonte o garimpo gorjeia.

Espoliada, a terra entrega cada adorno

' A dresina então desce e o que tem é areia.

Espoliada a terra e tudo o mais em torno.

Picaretas. Pés, pás. Querem a pedra alheia,

O olho cobre o minério; a gruta esgota o forno

' A dresina então sobe e de astros venha cheia.

A terra, de chão passa a teto na busca,

E, ao seu fim, mesmo ao ouro que agora o homem encontra

O basalto, de que é feito a lápide, ofusca.

Tanto embate e domínio e ainda o caráter graxo!

Fulja a cruz sobre a escória (o engano) que lhe é contra,

E até na pátria de ouro eu carregue o seu facho.

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A SERVENTIA DA ORELHA

 

O cabelo mesclado a uma pasta, o odor se erguendo acima do perfume das folhas no orvalho. Ao chão, como uma relíquia, sua orelha estendida. O golpe, desferido com violência e dessuetude, nada mais fizera do que arrancar-lhe a orelha. Com os dedos tintos, estanca o sangue, ainda ferozmente desejando. Pode ouvir ainda perfeitamente os pescadores acuados por outros soldados. O prisioneiro chega. Não veio terminar o ataque. Abaixa-se servilmente. Seu instinto o inspeciona, desconfiando. O membro amputado surge em suas mãos largas, encalecidas. Embora sua ação seja muda, é significativa. Parece proferir uma prece pacífica. A orelha volta ao local, o prisioneiro recua com respeito. O semblante retendo uma magnitude que emociona o olhar. Até de um soldado ferido. Como se a esperança de paz viesse de um homem contra quem se fazia guerra. Na opacidade azulada do luar, o carpinteiro manietado recebe uma escolta de escárnios e empurrões. A marcha será longa, sem recesso piedoso. E se está apenas no início de madrugada. Os soldados todos riem, ou quase. Um tenta não chorar. Mas quer. Por que prender quem o libertou de um ferimento vexatório? Mas como soltá-lo? Por vezes lhe parece que o Mestre olha para trás, desculpando-o pela indecisão, quando ele poderia socorrê-lo. O destino surge: mãos sacerdotais abrem a porta, poucos soldados são necessários ali. Alguns abandonam o corpo, ainda podem beber ou fanar. Ele, na poça vendo a orelha presa à cabeça como a princípio, apenas refletirá. Talvez podendo chorar, porque ouvirá gritos que paredes não podem abafar.

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DISCURSO DE KHUN-ANUP

 

Palavras de Rensi

 

Ó filho de Rá: fala-vos, ó Rei,

O pó que ante a presença tua expira.

Faraó: o camponês de quem tratei,

Cuja fala escrivães põe no papiro,

Cuja eloqüência aos sábios tanto admira,

Muito trouxe, e ao porvir eu me refiro:

O que nos disse com tanta beleza,

Quem sabe sirva para, no futuro,

Relembrar a justiça a um povo duro

E no Nilo haverá sempre a realeza.

Engenheiro Coelho, 30 de Outubro de 2002, às 10:58h.

I ' Discurso de Khun-Anup

Trago-vos, Rensi, vinho de mélea uva,

Posto que frutifica vossa mente:

Sois para a mão do fraco a única luva,

E para o camponês sois a semente;

Pai dos órfãos, marido da viúva,

Útero ao que possui a mãe ausente;

Quando vindes, justiça cai em chuva,

Que aniquilais quem fala falsamente;

A repudiada tem em vós o irmão,

Ó sol que abris as pálpebras da lei,

Estendendo ao mendigo a mesma mão;

Ouvi, ouvi, que agora falarei,

Não para gastar tão nobre atenção;

Peço-vos: trazei ma'at, filho do Rei.

Engenheiro Coelho, 29 de Outubro de 2002, às 23:30h.

II ' Discurso de Khun-Anup

Ó governador, falam-me emoções

A mim, dos rudes homens o mais rude,

Ao ver por soberanos das nações

Gente baixa que por gan'ncia ilude.

Mostram vossos juizes nas ações

Em lugar de perícia, dessuetude;

Braços valentes, jovens corações

Têm, sem que vosso braço lhes ajude.

Funcionários são pedras de moinho

Cansando píceos ombros pacientes

De todo estrangeiro, órfãos e vizinho.

Nossas unhas rói, tira nossos dentes

A corte, que põe sobre os ombros linho,

E desnuda oprimindo nossas mentes.

Engenheiro Coelho, 30 de Outubro de 2002, às 9:20h.

III ' Discurso de Khun-Anup

Vi barqueiros levando a quem pagava;

Mastigam o humilde aves de rapina;

Ao rebanho nenhum pastor contava;

E a polícia é quem ao povo assassina.

Como pode haver entre a não brava

Uma corrupção tal? Quem imagina

Que ergue pórticos débil mão escrava,

Sem nada receber da corte fina?

Quando o chefe, que deve reprimir

Às mãos manchadas por sangue inocente,

Ao que quer vem por força possuir,

A cúpula dos maus vê-se de frente

Com gente em cujo mal podem sentir

O exemplo do que é ser ímpio somente.

Engenheiro Coelho, 30 de Outubro de 2002, às 14:35h.

IV ' Discurso de Khun-Anup

Se assegura o favor a propriedade,

Se o que traz o direito é o dinheiro,

Vague a viúva em vão pela cidade,

E da esperança aparte-se o ceifeiro.

Não haverá para o órfão sociedade

E nem para o faminto algum celeiro;

Todo o tempo será de enfermidade,

Para o grande e pequeno, o tempo inteiro.

No portal do horizonte, o Criador

A todo pulmão fez com que ar houvesse

E a inundação a todo lavrador;

Fez homens iguais ' mas quem lhe obedece?

Ao Reino pascerão medo e pavor,

' Deus Se recusará a ouvir a prece.

Engenheiro Coelho, 30 de Outubro de 2002, às 15:15h.

V ' Discurso de Khun-Anup

Escutai, escutai a voz com sede

De que haja terra para quem planta

E arroz para o estrangeiro; escutai, vede

A fome que ante o povo se levanta.

Ao pescador ninguém fornece rede;

Logo, o seu insucesso não espanta.

Lede a falta de siso, ó Rensi, lede

O ouro que em vosso cofre apenas canta.

O molar de oficiais se encontra cheio

E se envergam ao peso dos colares,

Por semear no pobre um falso enleio.

Dizem falsas promessas para os lares,

E às choças mentem ' era o único meio

De dominar: excluindo os próprios pares.

Engenheiro Coelho, 30 de Outubro de 2002, às 16:30h.

VI ' Discurso de Khun-Anup

Como ser leal quando há nisto morte?

Como obedecer quando a Opressão manda?

É razoável o julgo férreo e o porte

Rijo da tirania que em volta anda?

Obediência é moral e é nossa sorte,

Indispensável para que se expanda

A nação, para que ela seja forte,

E não haja jamais sombra nefanda.

À garganta do fogo levará,

Porém, a servidão à ordem sandia,

E a noite o obedecer toda lei má.

Na pir'mide da ordem haveria

Base com a miséria que se dá?

Nem terra, nem o Nilo, nem o dia!

Engenheiro Coelho, 30 de Outubro de 2002, às 16:55h.

VII ' DISCURSO DE KHUN ANUP

Sabeis, Rensi, que trato do que vejo

E da opressão vos trago hostis notícias;

Tendo os superintendentes o desejo,

Crescem contra os excluídos as sevícias.

Vem inédia ao estrangeiro, ao órfão despejo,

A consumpção geral fere as milícias:

Despojam díscolos qualquer sobejo;

Moças por pão se entregam às malícias;

Cede o sistema sem leis sob o céu

' A gente acorre à praça, adversa à fleuma,

Opondo-se à ordem, a causar celeuma.

A vasca aumenta, é como um neuma.

Sem grãos, como viver sem escarcéu,

Se cada plantio hoje anda griséu?

Guarulhos, 3 de Janeiro de 2005, às 23:58h.

VIII ' DISCURSO DE KHUN-ANUP

Cítaras se ouvem do palácio em festa

E harpas tocam até o amanhecer;

Como pode ocorrer coisas como esta,

Quando o agricultor míngua sem colher?

Quando acomete a usura à mão que empresta,

E o juiz deixa por lucro o dever,

Como bem de nossa época se atesta?

O governo é quem quer se promover?

Maquilam a verdade com promessas,

Compram o povo com miúdos favores,

Construindo casas ou pontes às pressas!

Querem nos fazer crer que olham por nós,

Que intensamente sentem nossas dores,

Quando a alma contraria a própria voz!

Guarulhos, 4 de Janeiro de 2005, às 24:28h.

IX ' DISCURSO DE KHUN-ANHUP

Não sou poeta ' sou um camponês,

Que as mãos tenho ásperas e os pés com bolhas;

Assim, não sei falar com sensatez

' Sei cuidar de hortaliças, rego as folhas.

Ó Rensi, luz sois, Deus mesmo vos fez

Para nos guiar por vossas escolhas.

Somos vosso rebanho montanhês,

E as ovelhas, sabeis bem, são zarolhas.

Peço-vos que se alguma frase incauta

Vos pareceu faltar com o respeito,

Perdoai-me: sequer sei seguir a pauta.

No demais, o fragor que arde em meu peito

Ignora o que se fala à mesa lauta

E não sabe das jóias o conceito.

Guarulhos, 4 de Janeiro de 2005, às 24:45h

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(Profanação)

Notas ébrias de algum balcão, quando num forte

Arremedo de busca, os passos dispõem para

A noite externa. Vem do ônibus, se prepara

Para enfim descansar dos sons de sua sorte.

Sua silhueta oval perpassa o beco, corte

Do silêncio. Uma ação conturbada. Lutara

Assim jamais para guardar jóia tão cara

Aos sonhos juvenis, conduzidos à morte.

O apito do vigia, extinto… O gume a esfola,

Ao passo que, exposta, uiva. Em dor, desmaia, quase.

Melodias em transe, o toque impuro… viola.

Hoje ' ela continua ali, naquele estado,

De bruços, balbuciando a mais amarga frase,

Qual oratório cujo ídolo foi roubado.

 

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A DIETA DA FÉ

 

 

 

 

    Que pode querer um escravo de guerra senão a mercê genuína de manterem-no vivo Ao menos enquanto aprouver a seus senhores Levando em conta que o cativo é descartável Para aquém de inócuo Desprezível e inútil Nenhuma gota de vontade pode transparecer em sua compleição O escravo não suplica Ele se submete Seus andrajos devem lhe parecer supremamente mais favoráveis do que o esc'ndalo de sua nudez Um escravo deve se alegrar com a ordem Pois seu senhor dignou-se a lhe dirigir a voz O escravo é uma alma esvaziada Não aquele escravo

   Gabriel ouviu do Céu

   Ao anjo que assiste diante do trono foi dito

   Ele é meu amado

   E eu cuido de quem amo

   Um escravo que recuse da porção real Um escravo que se atreva a julgar o banquete como impureza Um escravo que não sinta devoção Ainda que fosse uma devoção mec'nica e desprovida de fervor Pelos deuses de seu senhor

   Meu Deus Tu és o Único Salvador

   Minha Rocha Em quem confio dia e noite

   Bem sabes Senhor Que sou Teu servo em tudo

   Meu corpo é Teu templo Onde habitas e vives

   Não o deixarei contaminar-se nunca

   Ainda que me custe a vida conservá-lo

   A inspeção encontrou os jovens apreensivos Conquanto quatro entre os cativos hebreus sorrissem interiormente Sabendo Com antecipada segurança Qual seria o resultado Apenas eles podiam prever Os encarregados Entretanto Esboçavam indiscretamente seu assombro E as figuras em seus rostos nada escondiam Como poderiam vegetais e grãos Acompanhados por água pura Revelarem-se fonte de saúde Ainda mais que abençoados não por um panteão Porém pela mão de um Deus Cujo povo Nabucodonosor vencera com um dedo

   Gabriel sabia Ele mesmo escutara a voz do trono A voz que agora se ouvia irradiando gargalhadas

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GRAAL

"Quanto mais próximo você viver de Deus, menor todo o resto parecerá."

Rick Warren, Uma vida com propósitos, p.34.

A expectativa involuntária

Faz chafurdar o coração

No triste ritmo de triste ária,

Ária triste em razão

Do ideal que demora.

O néctar da nuvem que chora

Mal abençoa o chão.

Contêiner sólido protege

Uma ilusão tão aflitiva

Pela qual trafica um som bege;

Esta ilusão, que é viva,

Reserva para nós

Tesouros sob casca de noz,

Com impacto de ogiva.

Se o sonho, ó Deus, me contagia,

Dá-me a Palavra que orienta,

Para eu discernir o Teu dia,

Não o que a mente inventa;

Talvez nem mesmo ocorra

De alcançar tudo antes que morra

' Mas Teu amor sustenta.

Faze tudo a Teu tempo, ó Pai,

E me desvie do que é mau,

Que, parecendo um bem, me atrai;

A ir, degrau por degrau,

Que o Teu óleo suavize

Marcas que trouxer-me o deslize

Enquanto singra a nau.

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EXCEÇÃO

 

 

 

Da exígua ave, a se espraiar pela atmosfera,

Ao extenso cetáceo ao índigo restrito,

Todos se doam, como em mútuo rito,

Dando à Vida o que o Deus Vivo lhes dera.

Vário coral, que ao atol lota, coopera,

E a flor na haste, que tem na abelha o fito,

Sente o prazer desde que lhe foi dito

Por Deus que viesse à vida em sua esfera.

Deus mesmo estendeu sobre o mundo a capa

Ao se expor à cruz, sob punições vis!

Longe, ao ver se dobrar cada cerviz,

A inércia domina o atlas, salta e escapa;

Sem nada dar, de tudo as mãos consomem

' Na Terra, há egoísmo apenas no homem.

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CRUZEIRO EM CORES

 

 

 

Veleja. À crosta d'água rompe um bando

De barbatanas. Sobre esse indivíduo

Fúmeo caleidoscópio observa quando

Sangrando singra o mar o globo ocíduo.

À encosta a nau dirige-se, indo a mando

Do Poeta de argonáutico resíduo.

Em crisópraso o glauco se tornando:

Brilha o nácar do céu, sôfrego e assíduo.

Beija a pele arenosa do nadir

O oleado casco e ancora, vendo a hulha

Da lua a outras praias invadir.

Na efervescente dança das faísca,

Aparecem, logo onde a onda marulha,

Sem burqas, rindo, mil pedras mouriscas.

 

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HÁ UM POUCO DE CADA UM DE NÓS EM SEU CHORO

 

 

 

Há um pouco de cada um de nós em seu choro

Sacudindo os varais do gueto em madrugada

De tiroteio. A tosse eu sinto resignada

Indulgente com meu vício. Os astros em coro,

Da Via-Láctea querem ser parte do leite

Escasso a escorrer de um seio a outros pertencente

' Basta que pagem. Seu choro é cru, sem enfeite:

Nu sobe ao palco sem que uma máscara invente.

Chore, chore, meu filho, imagem do que trago

Em dolorido espírito ' última voz da era

Sem achar expressão. Chore à sombra do afago.

Chore que há esperança em ver a criança em pranto,

Como intérprete de algo alheio à sua esfera,

Pois criança em Nazaré foi também o Deus Santo.

 

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A MÃO

 

Polegar de peripécias que, vermelho,

À boca vai, sempre inconstante o artelho.

Indicador, que descobre a tudo e, anil,

Leva à língua o açúcar de quitutes mil.

Médio, da grandeza e amadurecimento,

Verde a semear sonhos altos no vento.

Anular fiel, anular que usa branco,

Sempre preso ao lar, em paz ou solavanco.

Mínimo, de inútil notório e marrom,

Revendo álbuns, lendo cartas ' tempo bom!

A palma que a todos liga, negra palma,

Muda e inócua agora a antes cheia e viva alma.

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